Música e arte para os fãs de quadrinhos

segunda-feira, 30 de abril de 2012 0 comentários


Música e arte para os fãs de quadrinhos

Durante muito tempo, as Histórias em Quadrinhos (HQs) foram discriminadas pela sociedade. Chegava-se ao absurdo de pesquisadores afirmarem que esse tipo de narrativa tornava as crianças mais burras, impedindo-as de absorver conteúdos “mais importantes”, como a matemática e o português. Entretanto, com o passar dos anos, talvez por estudos posteriores terem provado justamente o contrário, talvez devido ao gosto por esse tipo de leitura ter passado de pai para filho, o preconceito diminuiu. Tanto, que os quadrinhos chegaram até a se tornar moda em camisetas e em temas de filmes hollywoodianos. Dessa forma, as HQs, antes vistas como mero entretenimento infantil, hoje abarcam uma boa parcela do mercado editorial.
A nona arte, como também é chamada esse tipo de narrativa gráfica, não se limita apenas ao conteúdo impresso e divulgado em livrarias e bancas, muito menos é restrita a grandes nomes de quadrinistas consolidados no mercado. Com o grandioso advento da internet e das várias ferramentas de edição acessíveis ao grande público, os leitores fãs de quadrinhos passaram a ser também produtores. Mas, como a maioria não tem recursos para bancar encartes impressos, muitos fazem uso de blogs e redes sociais para publicar os trabalhos. São os chamados WebComics, que têm virado uma febre na internet nos últimos anos.
O Quadrinhos Rasos faz parte dessa tendência. Criado em 2010 pelos mineiros Eduardo Damasceno, produtor editorial, e Luís Felipe Garrocho, historiador, o blog tem sido muito bem recebido pelos fãs da arte sequencial. A ideia, até certo ponto inovadora, é de criar tirinhas a partir de letras de músicas e assim manter um padrão de produção constante para os dois quadrinistas. Porém, para quebrar monotonia da letra original, os ilustradores tentam dar um novo sentido às palavras através dos desenhos.
 É o caso, por exemplo, da tirinha de número 83 que ilustra a letra Quatro estações, da ex-dupla Sandy e Júnior: “No outono é sempre igual/ as folhas caem no quintal/ só não cai o meu amor pois não tem jeito não/ é imortal”, onde é representado uma jovem princesa sentada debaixo de uma árvore com folhas de outono caindo ao redor dela enquanto um homem, representando aparentemente o lendário (e imortal) Rei Artur, está pendurado, vivo, por uma estaca enfiada no peito no alto da árvore.
 E o que começou com o simples interesse de produzir rotineiramente amadureceu e ganhou forma em um novo projeto, desta vez mais ousado. Agora eles pretendem produzir quadrinhos e, a partir deles, criar músicas para servir como uma trilha sonora aos leitores. A HQ, intitulada Achados e Perdidos, que tem o primeiro capítulo e a primeira música disponíveis gratuitamente no blog WWW.quadrinhosrasos.com, conta a história de um garoto chamado Dev que um dia acorda com um buraco negro na barriga.
Apesar do mote da história parecer inicialmente desinteressante aos desavisados, a narrativa surpreende tanto em termos de originalidade e traço quanto na sensibilidade da obra. As melodias, talentosamente elaboradas pelo músico Bruno Ito, dão uma nova leitura aos desenhos e criam uma atmosfera instigante aos sentidos e interpretação de quem lê. A exemplo do primeiro capítulo, em que há uma cena com os personagens caminhando pelas ruas. Junto da melodia, foram inseridos ruídos típicos do trânsito e da cidade, sugerindo ao leitor um determinado ritmo que irá acompanhar a música até o final do capítulo.
Para financiar mil exemplares, cada qual acompanhado de um CD com a trilha sonora, os quadrinistas terão de desembolsar a quantia considerável de 25 mil reais até o dia 10 de outubro deste ano. Entretanto, graças ao Cartase.me, site destinado à doação voluntária para projetos culturais e artísticos, os mineiros poderão contar com o apoio do público. Qualquer pessoa pode colaborar com quantias que variam entre R$ 10,00 a R$ 5.000 reais. Quanto maior o valor, maior é o prêmio que a pessoa leva. No caso, os interessados em adquirir um exemplar de “Achados e Perdidos” e recebê-lo em casa devem fazer uma doação de R$ 35,00 para o site. Ainda não há previsão de quando a HQ chegará às livrarias.
Se esse projeto conseguir ser financiado exclusivamente pelo apoio do público, muitas novas (e boas) perspectivas se abrirão aos produtores de quadrinhos talentosos ainda desconhecidos pelo país. As expectativas são enormes. E não são os apoiadores e ilustradores que ganham com isso. A nossa cultura artística também.

Amanda Alboino

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